O visionário

O visionário é a pessoa da equipe capaz de olhar mais longe, de intuir os caminhos pelos quais será preciso ir e fazer isso antes de todos. É o que vê mais longe, o que sonha de forma positiva. É o dono da “intenção” da organização, o propósito final que deve servir de farol e guia. Alguns dos melhores visionários têm formas de raciocinar que parecem imprevisíveis, pois não seguem uma lógica linear, mas dão saltos para a frente em seu raciocínio e fixam objetivos que à primeira vista parecem impossíveis ou muito difíceis de conseguir. É seu convencimento de alcançá-los o que inspira e empurra a organização. Entre as características do visionário estão o entusiasmo e a valentia. Sua força é contagiante e desencadeia emoção, uma emoção positiva que impregna o grupo no propósito que o entusiasma. Ser o dono da intenção com maiúsculas quer dizer acreditar em si, ter interiorizado de maneira autêntica que os objetivos fixados serão alcançados. Às vezes, isto significa estar atento aos pequenos detalhes ou fixar-se no que podem parecer meras casualidades. É preciso saber ler e interpretar, transformá-los em fatos positivos que beneficiam os propósitos estabelecidos e não fazer caso das previsões negativas, das ameaças ou dos perigos que se acumulam. Com quantos visionários você, leitor, já não terá se entusiasmado — ou ficado assustado! O bom visionário é aquele que sabe escolher bem qual de seus sonhos é o mais factível e o mais positivo. Não tem muitos sonhos, mas os que têm são, geralmente, de grande envergadura. E isso é assim porque ele sabe que não pode falhar muitas vezes. Se falhar, quando voltar a expressar um grande sonho e este não se cumprir, ninguém mais o seguirá e ele perderá sua condição de visionário, que é o mesmo que dizer que perderá a essência que o justifica. Deixará de ser o que é. Assim, o bom visionário também é uma pessoa de juízo. Os visionários que transmitem otimismo injustificado o tempo todo e expressam ideias ambiciosas sem parar tornam-se irrelevantes. Também há os visionários ocasionais. Ou seja, valem para uma ação, para um momento no qual têm a coragem de imaginar algo que aparece como impossível e, ao darem o primeiro passo adiante, conseguem fazer com que os outros os sigam. São os empreendedores ou alguns políticos que ficaram marcados na história. Se são inteligentes, este tipo de visionário deixa que outros mais capacitados continuem a obra quando já não é preciso tanta ousadia, quando já não é necessário correr tantos riscos. Se não são inteligentes, o mais normal é que continuem à frente assumindo a cada dia novos riscos, sem medo das consequências. É o tipo de visionário que acaba por não levar a organização a um bom porto e destrói seu sonho original. Fazendo um paralelo com o que acontece no campo de futebol, o papel dos visionários é exercido normalmente pelos jogadores de mais talento, os mais imprevisíveis e geniais, capazes de ver jogadas que nenhum outro é capaz de intuir. Em geral, trata-se de jogadores ofensivos, que ocupam posições de ataque, bem na frente, bem no centro do campo.

 O doutor Não

 O doutor Não, como o nome claramente indica, é a pessoa da organização que frequentemente precisa colocar um freio nos planos do visionário e dizer que o proposto não é factível. É o contraponto do visionário e tão necessário quanto aquele, pois traz a prudência, a perspectiva, a análise fria. É aquele que introduz uma dose de realismo em todas as discussões. Também é o planificador e o controlador, por isso este papel quase sempre recai sobre pessoas com um marcado perfil financeiro. Como o doutor Não é uma pessoa que pode se tornar incômoda em uma organização, só é eficiente se tem o respeito dos outros componentes da equipe, especialmente se goza da confiança do visionário. Dado que o doutor Não entrará com frequência em conflito dialético com o visionário, é imprescindível que as duas figuras se respeitem. Só assim o resultado será positivo para o grupo. Quando, no verão de 2003, nos deparamos com o desafio de organizar o Barcelona, tivemos claro que na equipe de administração necessitávamos de um doutor Não muito bom. Os clubes de futebol são fábricas de emoções e como tais estão cheios de visionários, pessoas dentro e fora do clube que têm ideias fabulosas, emocionantes e extraordinárias, infalíveis para conseguir sempre a vitória. O risco de tomar decisões de maneira emocional, especialmente depois de derrotas inesperadas ou inoportunas, por exemplo, é muito alto, e todas estas decisões têm um custo monetário elevado. Necessitávamos de um doutor Não. E o encontramos. Anna Xicoy exerceu primeiro o cargo de diretora financeira e depois foi diretora-geral, onde conseguiu fazer uma boa contribuição à equipe administrativa e ao clube. Nos anos em que estivemos à frente da diretoria do Barcelona, topamos com muitos doutores Não de outros times. Normalmente, são pessoas que têm peso decisivo nas organizações, mas que atuam distantes dos meios de comunicação. Vou dar dois exemplos: O primeiro é do Bayern de Munique. Este clube alemão tem uma estrutura de liderança muito bem definida e equilibrada, com peso indiscutível. Seu presidente é Franz Beckenbauer, uma pessoa que como jogador do Bayern e da seleção alemã ganhou todos os títulos possíveis. Karl-Heinz Rummenigge é o diretor-geral e tem um passado brilhante como ex-jogador. Ele representa o clube na Alemanha e internacionalmente. Tem postura séria e firme, de acordo com seu prestígio de jogador. E também há Uli Hoennes, que é diretor técnico e também formou parte, com Beckenbauer, de uma das épocas de mais êxitos do Bay ern e da seleção alemã. Também vi Hoennes atuar em fóruns de clubes como o G-14. É uma pessoa menos diplomática, muito mais direta. Nota-se que conhece muito bem o futebol, os jogadores e o que acontece nos vestiários. Apesar disso, uma pessoa-chave no clube bávaro, no que diz respeito à gestão, é Karl Hopfner, o diretor financeiro. É alguém que manda muito no Bayern. Ajuizado e prudente, tem perfil clássico de gestor financeiro. Quando é preciso comprar ou vender jogador do Bayern, é com ele que se deve falar. É o doutor Não do Bayern de Munique. O segundo exemplo é da Juventus, e é bastante parecido. A liderança do clube de Turim era formada por três pessoas, embora só duas delas fossem conhecidas do grande público. Uma era Roberto Bettega, ex-jogador de prestígio. É inteligente, experiente e representava muito bem a Juventus no mundo do futebol. A segunda é Luciano Moggi, o diretor técnico. Trata-se de um personagem que gera certa inquietude aos que o encaram, causa um pouco de medo. Fala muito pouco e só em italiano. Nunca dá para saber se você está diante da pessoa ou do personagem, de um homem que sabe tudo, de uma destas personalidades que criam uma imagem pública à base de falar muito pouco, deixando claro que sabem muito mais do que dizem. E, por fi m, havia uma terceira pessoa, Antonio Giraudo, o autêntico doutor Não da Juventus. Economista e financista, conselheiro delegado do clube de Turim. No terreno de jogo, os doutores Não podem ser encontrados, preferencialmente, em posições defensivas. São jogadores que optam por não arriscar se não for absolutamente necessário, pois entendem o custo de marcar um gol contra. Atuam com prudência, procuram ter controle da partida, dão ordens aos companheiros para que não percam a disciplina tática, pedem que não abandonem seus postos sem necessidade.

O ombro

O ombro é o que os ingleses chamam de doer, quer dizer, o que faz as coisas. Quando o visionário e o doutor Não já discutiram bastante a ideia, o ombro pega a informação resultante e a coloca em prática, joga-a sobre o próprio ombro. As características que melhor o definem são o estímulo e a perseverança, tem espírito de sacrifício e, em geral, é um trabalhador incansável. O ombro dá equilíbrio ao grupo. Frequentemente também proporciona sensatez porque sabe, talvez melhor do que todos, quanto custa fazer as coisas. Sempre olha a tarefa que foi encomendada com espírito positivo, procurando o melhor meio de realizá-la, de levá-la à prática. Tenho visto equipes com visionários e doutores Não que nunca conseguem transformar suas ideias em realidade, por melhores que possam ser, porque não encontram ou não têm ninguém no grupo que as realize, porque ninguém as coloca sobre o ombro e as põe em prática. O ombro do time são esses jogadores que dão equilíbrio ao conjunto. Que entendem em cada momento do jogo que ritmo devem impor, a quem devem dar mais espaço, se aos visionários ou aos doutores Não. Apesar de ser comum vê-lo no centro do campo, nas tarefas de direção da equipe, sendo uma espécie de prolongação do treinador no campo, às vezes esta tarefa recai sobre alguém da defesa. Na verdade, na linguagem jornalística do futebol, não é estranho escutarmos falar de jogadores que “levam a equipe no ombro”. Fazem isso nos momentos mais críticos e contagiam com seu exemplo o restante dos companheiros, empurrando-os em direção à vitória. O ombro dos times são pessoas geralmente generosas e abnegadas. Gostam de cumprir seu papel, mas também necessitam do reconhecimento do restante do grupo. Em cada época e em cada circunstância de uma organização, é preciso se perguntar que combinação de visionários, doutores Não e ombros se necessita na equipe de administração. E quem entre eles deve ser o líder. Existe a tendência a pensar que o visionário deve ser sempre o líder, e não é assim. Haverá circunstâncias e momentos nos quais o mais importante para a empresa ou a organização será a ordem e o controle. Então, será necessário que o líder seja o doutor Não. Em outras, quando o que é preciso fazer está bem definido e claro para todos e o que falta é ir direto ao ponto, acelerar com tudo, colocar em prática, a liderança deverá recair sobre o ombro. E, da mesma maneira que no mundo empresarial ou organizacional, pode haver pessoas que saibam cumprir, em cada momento, mais de um destes três papéis porque as circunstâncias exigem; também em um time podemos encontrar jogadores que compartilhem as características de mais de um tipo. Na hora de montar a equipe, de fazer a escalação, o treinador deverá decidir de que equilíbrio precisa para enfrentar uma partida qualquer, em função do rival ou das circunstâncias do campeonato. E, durante a partida, poderá incidir na dinâmica fazendo mudanças, introduzindo mais doses de visionários, doutores Não ou ombros para mudar o resultado ou mantê-lo.